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Os engenhos de farinha estão morrendo

O que antes era a alavanca da economia do litoral catarinense
e o ganha-pão de muitos agricultores está fadado
a ficar apenas na memória da população
ou servir de decoração em ambientes de grandes
mansões. São os engenhos de farinha, movidos
a tração animal e que, de centenas existentes
no passado, hoje não passam de uma dezena em funcionamento.
A memória é quase tudo o que resta dos engenhos
de farinha e há muita dificuldade para encontrar um
engenho tocado a boi. Boa parte dos remanescentes está
funcionando à base de energia elétrica. Para
piorar, os que trabalham pelo sistema antigo, praticamente,
já fizeram a última fornada, ou estão
servindo de atração em festas que cultuam a
tradição açoriana. Os existentes obrigam
o agricultor/proprietário a buscar mandioca em outras
localidades. Já se pode constatar que o cultivo do
produto, base da economia do Estado em tempos idos, está
se acabando.
Em Florianópolis, desde 1666 se tem notícias
de que havia lavouras e construções de engenhos,
quando iniciou-se o processo de colonização
do Rio Vermelho, onde originou-se uma das três mais
antigas freguesias da Ilha, fundada por açorianos,
em 1750. A localidade foi rica em engenhos de farinha e de
açúcar (ainda existentes na Costa da Lagoa)
e próspera no cultivo da terra e na pesca. Eram produzidos
também tecidos de algodão, em teares rudimentares,
nos séculos XVIII e XIX. Também Sambaqui, Sertão
da Lagoa do Peri e Ribeirão da Ilha tiveram seus engenhos.
Em Santo Antônio de Lisboa resta o Engenho da Família
Andrade, que foi recuperado e hoje voltou a funcionar. De
acordo com dados do NEA/UFSC, há hoje engenhos em Ratones,
Vargem Grande, Lagoinha da Ponta das Canas, Ribeirão
da Ilha, Tapera e Sertão do Peri.
Engenho dos Andrade ainda faz farinhada

Cláudio Agenor Andrade é um dos abnegados que
cultuam a tradição e a memória mas não
abandonou a atividade, fazendo sobreviver o engenho que outrora
pertenceu aos seus antepassados. Artista plástico,
ele é um dos 14 filhos do falecido Agenor José
de Andrade, antigo líder comunitário, roceiro,
pescador e proprietário do engenho em Santo Antônio
de Lisboa, reativado em junho do ano passado depois de quase
dez anos parado.
Como numa viagem ao passado, Cláudio vai lembrando
dos tempos em que subia o morro para a colheita da mandioca.
O barulho das rodas do carro de boi, chamava a atenção
dos vizinhos, que desciam juntos para o galpão e se
juntavam em grupos para iniciar a centenária fabricação
de farinha, biju, cuscuz, rosca de polvilho e outras especialidades
da culinária açoriana. Além de
ajudar na colheita, alguns vizinhos emprestavam o boi. A lida
começava cedo para as mulheres e crianças que
raspavam a mandioca. Enquanto isso, os homens iam acendendo
o forno, conta. Os bois só seriam colocados na
canga mais tarde, quando o calor estivesse no ponto, para
não cansar inutilmente.
Isso acontecia entre os meses de maio e julho. Às
vezes, durante os três meses inteiros o trabalho não
parava. É nessa época que a mandioca está
em melhores condições para o preparo da farinha.
Enquanto houvesse mandioca, o forno ficava aceso e sucediam-se
os trabalhos de raspar, ralar, prensar, esfarelar, colocar
no forno e preparar as delícias com que todos se lambuzavam.
Os Andrade chegavam a produzir 15 toneladas de farinha nesse
período. Mas nem tudo o que produziam era comercializado.
Em um paiol, com farinha socada a ponto de se tornar uma massa
compacta, eram conservados peixes e camarão, tudo para
ser consumido em dois, três meses.
Depois meu pai ficou muito doente e a atividade parou.
Só que resolvemos dar continuidade. Lembro quando o
pessoal falava pra ele que era ultrapassado usar animal no
engenho e o pai retrucava que sem o boi o engenho não
tinha alma. Hoje estamos resgatando não só a
história, mas dando continuidade a uma atividade que
era feita com muito amor por nossos antepassados, especialmente,
meu pai, observou emocionado. O engenho é aberto
a visitação e junto às suas instalações
encontra-se o casarão dos Andrade, no Caminho dos Açores,
entre Santo Antônio de Lisboa e Cacupé.
Roda de engenho voltou a rodar

O pai criou os filhos na roça e na pesca. Nunca foi
empregado. Como um dos mais velhos, Cássio Andrade,
de 68 anos, começou antes dos outros no batente, e
é também um dos responsáveis pela transmissão
oral do conhecimento. Foi através dele que o irmão
Cláudio ouviu boa parte dos ensinamentos sobre os engenhos
de farinha e sobre a história da família. A
casa em que atualmente vive com irmãos, cunhadas e
sobrinhos é de 1860. A família adquiriu o terreno
em 1920, quando o pai se mudou da Barra do Sambaqui.
O prédio estava abandonado e teve que ser restaurado.
O terreno, de 400 mil metros quadrados, era ideal para o plantio
da mandioca. Hoje isso não acontece mais, pois o local
foi transformado em uma APP (Área de Preservação
Permanente). Ironicamente, a mandioca utilizada para as demonstrações
no engenho é trazida de Santo Amaro da Imperatriz.
É impossível viver da agricultura dessa
forma. Muita gente está ficando sem condições
de sobreviver, diz Cláudio.
Ele recorda de algumas curiosidades - nem sempre de boa lembrança
- que marcaram a vida e o trabalho dos produtores de farinha.
Houve um decreto municipal, da década de 50, que proibia
o funcionamento dos engenhos sem piso no chão e azulejos
nas paredes. O pretexto era preservar as condições
de higiene, mas era uma determinação completamente
fora da realidade. O pessoal morava em casas de estuque
e tinha de ter azulejos no engenho, ironiza. Por um
bom tempo o engenho não funcionou pela falta da roda
da almanjava, a maior da estrutura, que faz todas as outras
girarem. Em 1987, a produção foi interrompida,
porque os irmãos Andrade não tinham mais tempo
e o pai adoeceu.
Se estivesse vivo, Agenor Andrade teria completado 100 anos
em setembro. Após 10 anos de sua morte, os filhos resolveram
reativar o engenho. Em um grande acontecimento, em setembro
do ano passado, durante as comemorações da Festa
do Divino Santo Antônio do Espírito Santo, a
roda do engenho voltou a rodar.
Açorianos se adaptaram ao uso da mandioca no litoral
catarinense
O conhecido museólogo e pesquisador Gelci Coelho,
o Peninha, criado praticamente ao lado do grande
bruxólico ilhéu, Franklin Cascaes, é
outro abnegado que luta pela preservação e faz
mapeamento dos engenhos no litoral catarinense. Ao lado do
engenho móvel instalado em frente à Reitoria
da UFSC, Peninha faz uma viagem ao passado e lembra da chegada
dos açorianos ao Brasil Meridional, na Ilha de Santa
Catarina. A partir de 1748, eram basicamente lavradores,
acostumados a plantar o trigo e a cevada. Trabalhavam com
atafonas na moagem do trigo, utilizando a força eólica
para movimentar os poéticos moinhos de vento,
muito comuns no arquipélago de Açores. Aqui,
a lavoura de trigo foi frustrante. Não vingou. As terras
não eram apropriadas para esse tipo de cultivo, pela
presença de densas florestas.
Os açorianos tiveram de se adaptar ao consumo da mandioca.
O beijú foi o alimento que salvou a necessidade básica
desses colonos. Aprenderam o cultivo da mandioca e sua utilização
como alimento e ainda a extrair também o polvilho com
o qual produzem roscas, broas e outras iguarias. Com a tecnologia
que conheciam, dos moinhos de vento, criaram adaptações
para que fossem movimentados os engenhos, utilizando-se da
força de um boi. A criação desse processo
de beneficiamento da mandioca, já no final do século
XVIII, levou a antiga Vila de Nossa Senhora do Desterro, na
Ilha de Santa Catarina, a exportar excedentes de farinha de
mandioca e polvilho para o Rio de Janeiro e para a província
de São Pedro do Rio Grande do Sul.
A extinção do processo artesanal

Peninha diz que os engenhos eram abrigados em grandes ranchos
cobertos com telhas de calha e com paredes barreadas ou tábua
corrida. Mas uma lei surgiu exigindo a colocação
de azulejos nos engenhos lugar onde se fabrica
alimentos tem que ser forrado com azulejos.
Assim, os engenhos, impossibilitados de cumprir a exigência
da lei, foram sendo paulatinamente demolidos, antes que algum
fiscal os surpreendesse fabricando a farinha de modo artesanal.
Depois veio a urbanização descontrolada, o local
da roça foi loteado e transformado em conjuntos habitacionais.Em
todo o Brasil ainda é produzida a farinha de mandioca
de forma artesanal. No entanto, nenhuma farinha se compara
àquela produzida no litoral catarinense. Somente aqui,
ao mesmo tempo, ela é fina, torrada e alva. Bendita
farinha, complementa Peninha, orgulhoso.
Seu Zico chora ao ver o fim dos engenhos

Proprietário de um engenho de farinha de mandioca,
movido a tração animal mas que também
pode ser tocado à eletricidade, e diferente porque
é móvel, o agricultor Milton Ferreira da Silva,
o Seu Zico, acompanhou o auge dos engenhos de farinha. Hoje,
ainda sobrevive da atividade e questiona o desaparecimento
da cultura e da produção da mandioca. Ele se
atreve a denunciar que o motivo do abandono do trabalho artesanal
foi político em forma de pressão. Os pobres
agricultores e pescadores, todos de famílias humildes,
não suportaram a pressão das autoridades, que
ameaçavam multar em valores astronômicos quem
não cumprisse a lei da Vigilância Sanitária.
Com medo de perder tudo o que tinham, ou o pouco que conseguiram
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