ANO VI-nº37 - março de 2005 - Florianópolis - 10.000 exemplares em papel - pega o teu, ô: Distribuição Gratuita


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[Capa/Livro Aberto] MAR.05

Vida de Pescador (Parte 1)
Fotografias de Rui Bittencourt e cerâmicas de Teca Bittencourt retratam a cultura e os costumes da Barra da Lagoa

O casal Rui e Teca Bittencourt abriram na última segunda- feira (28/02/05), às 19h30min, a exposição Vida de Pescador, inspirada na Barra da Lagoa. A mostra fica até 18 de março na Sala Lindolf Bell, no Centro Integrado de Cultura (Av. Irineu Bornhausen, 5.600, Florianópolis). Rui, um apaixonado por fotografia, e Teca, ceramista, já há bons anos formam um par. Esta paixão por artes tão distintas, integradas a uma longa e íntima convivência com o dia-a-dia dos pescadores da Barra da Lagoa, em Florianópolis, fez surgir um trabalho conjunto, cerâmico-fotográfico.

Localizada a leste da Ilha de Santa Catarina, a Barra da Lagoa se constitui na maior e mais autêntica comunidade pesqueira ilhoa. Sob forte influência dos Açores, Portugal, os costumes e hábitos, assim como o linguajar “manezinho” mantém, na Barra, em muito suas características originais.

Conseqüência de freqüentes caminhadas pelas praias durante todo o ano - por extensão à vizinha Moçambique - Rui e Teca vão encontrando e carregando para casa os mais diversos objetos trazidos pelo mar, resultado do vai-e-vem contínuo das marés. Partes de barcos, pedaços de ossos de baleias - antigamente havia uma Armação no local - troncos de madeira, tábuas, conchas - peças que por si só, diante de olhos sensíveis, já se tornam verdadeiras obras de arte - são desenterradas, levadas pelas ondas e depositadas na areia. Muitas são aproveitadas, vindo a emoldurar ou servindo como suportes às criações estilizadas de Teca: estrelas do mar, conchas, peixes, principalmente crustáceos, todos em cerâmica artística, esmaltadas e levadas a altas temperaturas.

O estilo fotográfico se concentra no cotidiano dos pescadores. Chegadas e saídas das baleeiras, o descarregar da pesca, a limpeza dos peixes, os traços físicos das pessoas, as gaivotas e garças famintas, instantes de lazer rodeado de amigos junto à mesa de dominó, a manutenção de equipamentos e o remendar das redes, congelando-se assim momentos, os mais diversos, tudo inserido num contexto mais amplo de documentação e preservação cultural desta original comunidade.

ENTREVISTANDO RUI E TECA

Miguelito: Quem são Rui e Teca Bittencourt ?
Ambos: Formamos um casal feliz há muitos anos, tendo uma vida artística em comum, que além de nos completar, faz da arte fotográfica e cerâmica, parte importante do nosso relacionamento.

M:
Vocês são “manés”?
A: Somos naturais de Tubarão, sul do Estado, porém nos sentimos verdadeiros manés, pois além de vivermos há muito tempo em Floripa, já enraizamos a cultura local em nossas vidas, prova disto é esta exposição que acabamos de lançar.

M:
Rui, você só trabalha com fotografia?
Rui: Não, sou formado em Odontologia pela UFSC e especialista em Ortodontia. Há muitos anos dedico-me à carreira em Florianópolis e nas horas vagas trabalho na fotografia.

M:
Teca, você tem outra formação além de ceramista?
Teca: Sim, sou formada em Letras, pela UFSC e Unisul.

M: Conte-nos sobre sua formação, seus estudos em cerâmica ?
T: Iniciei minha carreira em Buenos Aires no ano de 1978, com a ceramista Vilma Villaverde, já naquela época reconhecida internacionalmente. Tive meu aprendizado inicial em técnicas de modelagem, pintura e queima cerâmica. De retorno ao Brasil continuei meu aperfeiçoamento com as ceramistas Rosana Bortolin e Betânia Silveira, esta última tornou-se minha grande amiga, com quem sigo até os dias de hoje. Durante cerca de dez anos atuamos nas oficinas de cerâmica do CIC e, mais recentemente, na UFSC.

M:
Fale-nos sobre o processo cerâmico da criação de uma peça. Qual é a seqüência?
T: Inicialmente temos a escolha entre uma peça artística ou utilitária. Tudo começa com a preparação da argila e segue com a eleição da técnica que melhor se adapta a esta obra específica. Depois de modelada, a peça passa pelo processo de secagem natural; vem a primeira queima, transformando a argila ou barro em cerâmica. Essa queima é realizada em forno apropriado, geralmente elétrico, com temperatura em torno de 900 graus centígrados, por um período de 6 a 8 horas. A segunda queima é mais rápida, pois a temperatura é mais alta, em torno de 1000 graus. Esta última queima dá o efeito vitrificado - esmalte - e coloração - óxidos e pigmentos - em suas variadas técnicas de aplicação.


Continuação : [2]

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