ANO IV-nº36- fevereiro de 2005 - Florianópolis - 10.000 exemplares em papel - pega o teu, ô: Distribuição Gratuita


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[Historias da Ilha] FEV.05

Os engenhos de farinha estão morrendo

O que antes era a alavanca da economia do litoral catarinense e o ganha-pão de muitos agricultores está fadado a ficar apenas na memória da população ou servir de decoração em ambientes de grandes mansões. São os engenhos de farinha, movidos a tração animal e que, de centenas existentes no passado, hoje não passam de uma dezena em funcionamento.

A memória é quase tudo o que resta dos engenhos de farinha e há muita dificuldade para encontrar um engenho tocado a boi. Boa parte dos remanescentes está funcionando à base de energia elétrica. Para piorar, os que trabalham pelo sistema antigo, praticamente, já fizeram a última fornada, ou estão servindo de atração em festas que cultuam a tradição açoriana. Os existentes obrigam o agricultor/proprietário a buscar mandioca em outras localidades. Já se pode constatar que o cultivo do produto, base da economia do Estado em tempos idos, está se acabando.

Em Florianópolis, desde 1666 se tem notícias de que havia lavouras e construções de engenhos, quando iniciou-se o processo de colonização do Rio Vermelho, onde originou-se uma das três mais antigas freguesias da Ilha, fundada por açorianos, em 1750. A localidade foi rica em engenhos de farinha e de açúcar (ainda existentes na Costa da Lagoa) e próspera no cultivo da terra e na pesca. Eram produzidos também tecidos de algodão, em teares rudimentares, nos séculos XVIII e XIX. Também Sambaqui, Sertão da Lagoa do Peri e Ribeirão da Ilha tiveram seus engenhos. Em Santo Antônio de Lisboa resta o Engenho da Família Andrade, que foi recuperado e hoje voltou a funcionar. De acordo com dados do NEA/UFSC, há hoje engenhos em Ratones, Vargem Grande, Lagoinha da Ponta das Canas, Ribeirão da Ilha, Tapera e Sertão do Peri.

Engenho dos Andrade ainda faz farinhada

Cláudio Agenor Andrade é um dos abnegados que cultuam a tradição e a memória mas não abandonou a atividade, fazendo sobreviver o engenho que outrora pertenceu aos seus antepassados. Artista plástico, ele é um dos 14 filhos do falecido Agenor José de Andrade, antigo líder comunitário, roceiro, pescador e proprietário do engenho em Santo Antônio de Lisboa, reativado em junho do ano passado depois de quase dez anos parado.

Como numa viagem ao passado, Cláudio vai lembrando dos tempos em que subia o morro para a colheita da mandioca. O barulho das rodas do carro de boi, chamava a atenção dos vizinhos, que desciam juntos para o galpão e se juntavam em grupos para iniciar a centenária fabricação de farinha, biju, cuscuz, rosca de polvilho e outras especialidades da culinária açoriana. “Além de ajudar na colheita, alguns vizinhos emprestavam o boi. A lida começava cedo para as mulheres e crianças que raspavam a mandioca. Enquanto isso, os homens iam acendendo o forno”, conta. Os bois só seriam colocados na canga mais tarde, quando o calor estivesse no ponto, para não cansar inutilmente.

Isso acontecia entre os meses de maio e julho. Às vezes, durante os três meses inteiros o trabalho não parava. É nessa época que a mandioca está em melhores condições para o preparo da farinha. Enquanto houvesse mandioca, o forno ficava aceso e sucediam-se os trabalhos de raspar, ralar, prensar, esfarelar, colocar no forno e preparar as delícias com que todos se lambuzavam. Os Andrade chegavam a produzir 15 toneladas de farinha nesse período. Mas nem tudo o que produziam era comercializado. Em um paiol, com farinha socada a ponto de se tornar uma massa compacta, eram conservados peixes e camarão, tudo para ser consumido em dois, três meses.

“Depois meu pai ficou muito doente e a atividade parou. Só que resolvemos dar continuidade. Lembro quando o pessoal falava pra ele que era ultrapassado usar animal no engenho e o pai retrucava que sem o boi o engenho não tinha alma. Hoje estamos resgatando não só a história, mas dando continuidade a uma atividade que era feita com muito amor por nossos antepassados, especialmente, meu pai”, observou emocionado. O engenho é aberto a visitação e junto às suas instalações encontra-se o casarão dos Andrade, no Caminho dos Açores, entre Santo Antônio de Lisboa e Cacupé.

Roda de engenho voltou a rodar

O pai criou os filhos na roça e na pesca. Nunca foi empregado. Como um dos mais velhos, Cássio Andrade, de 68 anos, começou antes dos outros no batente, e é também um dos responsáveis pela transmissão oral do conhecimento. Foi através dele que o irmão Cláudio ouviu boa parte dos ensinamentos sobre os engenhos de farinha e sobre a história da família. A casa em que atualmente vive com irmãos, cunhadas e sobrinhos é de 1860. A família adquiriu o terreno em 1920, quando o pai se mudou da Barra do Sambaqui.

O prédio estava abandonado e teve que ser restaurado. O terreno, de 400 mil metros quadrados, era ideal para o plantio da mandioca. Hoje isso não acontece mais, pois o local foi transformado em uma APP (Área de Preservação Permanente). Ironicamente, a mandioca utilizada para as demonstrações no engenho é trazida de Santo Amaro da Imperatriz. “É impossível viver da agricultura dessa forma. Muita gente está ficando sem condições de sobreviver”, diz Cláudio.

Ele recorda de algumas curiosidades - nem sempre de boa lembrança - que marcaram a vida e o trabalho dos produtores de farinha. Houve um decreto municipal, da década de 50, que proibia o funcionamento dos engenhos sem piso no chão e azulejos nas paredes. O pretexto era preservar as condições de higiene, mas era uma determinação completamente fora da realidade. “O pessoal morava em casas de estuque e tinha de ter azulejos no engenho”, ironiza. Por um bom tempo o engenho não funcionou pela falta da roda da almanjava, a maior da estrutura, que faz todas as outras girarem. Em 1987, a produção foi interrompida, porque os irmãos Andrade não tinham mais tempo e o pai adoeceu.

Se estivesse vivo, Agenor Andrade teria completado 100 anos em setembro. Após 10 anos de sua morte, os filhos resolveram reativar o engenho. Em um grande acontecimento, em setembro do ano passado, durante as comemorações da Festa do Divino Santo Antônio do Espírito Santo, a roda do engenho voltou a rodar.

Açorianos se adaptaram ao uso da mandioca no litoral catarinense

O conhecido museólogo e pesquisador Gelci Coelho, o “Peninha”, criado praticamente ao lado do grande bruxólico ilhéu, Franklin Cascaes, é outro abnegado que luta pela preservação e faz mapeamento dos engenhos no litoral catarinense. Ao lado do engenho móvel instalado em frente à Reitoria da UFSC, Peninha faz uma viagem ao passado e lembra da chegada dos açorianos ao Brasil Meridional, na Ilha de Santa Catarina. “A partir de 1748, eram basicamente lavradores, acostumados a plantar o trigo e a cevada. Trabalhavam com atafonas na moagem do trigo, utilizando a força eólica para movimentar os poéticos “moinhos de vento”, muito comuns no arquipélago de Açores. Aqui, a lavoura de trigo foi frustrante. Não vingou. As terras não eram apropriadas para esse tipo de cultivo, pela presença de densas florestas.

Os açorianos tiveram de se adaptar ao consumo da mandioca. O beijú foi o alimento que salvou a necessidade básica desses colonos. Aprenderam o cultivo da mandioca e sua utilização como alimento e ainda a extrair também o polvilho com o qual produzem roscas, broas e outras iguarias. Com a tecnologia que conheciam, dos moinhos de vento, criaram adaptações para que fossem movimentados os engenhos, utilizando-se da força de um boi. A criação desse processo de beneficiamento da mandioca, já no final do século XVIII, levou a antiga Vila de Nossa Senhora do Desterro, na Ilha de Santa Catarina, a exportar excedentes de farinha de mandioca e polvilho para o Rio de Janeiro e para a província de São Pedro do Rio Grande do Sul.

A extinção do processo artesanal

Peninha diz que os engenhos eram abrigados em grandes ranchos cobertos com telhas de calha e com paredes barreadas ou tábua corrida. Mas uma lei surgiu exigindo a colocação de azulejos nos engenhos – “lugar onde se fabrica alimentos tem que ser forrado com azulejos”.

“Assim, os engenhos, impossibilitados de cumprir a exigência da lei, foram sendo paulatinamente demolidos, antes que algum fiscal os surpreendesse fabricando a farinha de modo artesanal. Depois veio a urbanização descontrolada, o local da roça foi loteado e transformado em conjuntos habitacionais.Em todo o Brasil ainda é produzida a farinha de mandioca de forma artesanal. No entanto, nenhuma farinha se compara àquela produzida no litoral catarinense. Somente aqui, ao mesmo tempo, ela é fina, torrada e alva. Bendita farinha”, complementa Peninha, orgulhoso.

Seu Zico chora ao ver o fim dos engenhos

Proprietário de um engenho de farinha de mandioca, movido a tração animal mas que também pode ser tocado à eletricidade, e diferente porque é móvel, o agricultor Milton Ferreira da Silva, o Seu Zico, acompanhou o auge dos engenhos de farinha. Hoje, ainda sobrevive da atividade e questiona o desaparecimento da cultura e da produção da mandioca. Ele se atreve a denunciar que o motivo do abandono do trabalho artesanal foi político em forma de pressão. “Os pobres agricultores e pescadores, todos de famílias humildes, não suportaram a pressão das autoridades, que ameaçavam multar em valores astronômicos quem não cumprisse a lei da Vigilância Sanitária. Com medo de perder tudo o que tinham, ou o pouco que conseguiram


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