ANO III-nº33 - dezembro de 2004 - Florianópolis - 10.000 exemplares em papel - pega o teu, ô: Distribuição Gratuita


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[Crônica] DEZ.04

NAPOLEÃO BONAPARTE É PINTO
por Olsen Jr

Percebi quando ela depositou as duas azeitonas no prato e acompanhei de perto a sua agonia em tentar prender uma delas com o garfo. Era um casal de amigos e tínhamos pedido, pelo serviço de entrega, uma pizza. Rápido e eficiente, porque a fome era grande.

Esta é uma batalha clássica, afirmei, e requer métodos clássicos. É necessário um apoio logístico. Você precisa, além da artilharia para açodar o adversário, também, da infantaria para persegui-lo, não lhe dando tréguas. Pegue um pedaço de pizza, corte-o em forma de “V” e deixe no meio do prato. Depois, com o garfo fustigue azeitona de maneira que ela comece a andar, escorregar, correr em volta do pedaço de pizza (onde vamos preparar a armadilha). O truque está em cansar o inimigo.

Após algumas voltas se obtém um duplo resultado: primeiro, o cansaço, e segundo, as debilidades daí derivadas, tontura, fraqueza, esgotamento, abalo nervoso, enfim, tudo decorrente do estresse a que está submetida. Claro está que as azeitonas ignoram que espécie de adversários estão enfrentando. O desconhecimento das reais forças contra as quais se luta é uma vantagem para quem possui a iniciativa do ataque e depois, o elemento surpresa na rapidez das investidas constituem-se em dois fatores básicos de êxito em uma batalha aberta como aquela. Deve-se ter o cuidado, como recomendava o Napoleão Bonaparte (grande estrategista) em se dividir o inimigo para vencê-lo. No caso, uma azeitona de cada vez. Para confundi-las seria interessante pô-las para correr, uma para o lado direito e a outra pelo lado esquerdo. Isso irá desorientá-las, além de outra vantagem, cortar a comunicação entre ambas, coisa que qualquer sargento domina. Você empurra a azeitona para o pedaço de pizza. Cansada e exaurida, ela vai imaginar que escapou do assédio, aí que se engana. Ao entrar no “V” descobrirá a cilada em que caiu, sem volta. Então, com o apoio do garfo da sobremesa você bloqueia a única saída. Assim, ela verá aqueles dois garfos se aproximando, sete lanças simultâneas, você ataca em paralelo. Na hora de dar a estocada derradeira, avança o lado direito, ela tentará um último recurso saltando, caindo finalmente no lado protegido pelo garfo da sobremesa. Devidamente ferida de morte sucumbirá em pouco tempo. Depois, o que restar dela, o caroço (ou o seu cadáver, como queira) deverá ficar exposto a céu aberto para servir de exemplo para todas as outras que tentarem uma insubmissão semelhante, como nas revoluções gaúchas de outrora.

Eles estavam rindo de tudo aquilo. Não é para rir, avisei. Quando era garoto gostava de estudar táticas militares, desde a guerrilha do cangaço, passando pelo Vietnã, até Che Guevara... mas eles continuaram rindo quando comecei a falar de Fidel Castro, Camilo Cienfuegos e Aidê SantaMarial. Deixa assim, eles não estavam escutando mesmo.

FIM

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