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MONUMENTOS MEGALÍTICOS Parte
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... DE PESCADOR A ANTROPÓLOGO
Adnir Antônio Ramos, pescador como boa parte dos nativos
da Fortaleza da Barra da Lagoa, encantou-se pelas inscrições
rupestres da Ilha de Santa Catarina em meados dos anos 80.
Ficou tão intrigado que lutou para entrar na universidade
só para estudá-las.
Tudo começou em 1986 quando Ramos saiu um dia para
pescar com mais alguns homens. Um deles lhe apontou, do barco,
algumas inscrições esquisitas no
costão da Barra, num ponto conhecido como Ponta do
Frade. Ramos então começou a se perguntar o
que eram, o que significavam e quem desenhara tão estranhos
símbolos naquelas pedras. Começou a notar também
que, além dos desenhos, havia algumas pedras graníticas
imensas no topo do morro da Barra da Lagoa.
Um dia sentado no terreno atrás da sua casa, na Fortaleza
da Barra da Lagoa, observou a lua nascer exatamente entre
duas pedras. Começou então a procurar uma plataforma
de onde pudesse ver o sol nascer sobre ou entre algumas delas.
Até que descobriu uma interessante coincidência:
a pedra que servia para os povos ancestrais como ponto de
observação daquele imenso calendário
solar estava localizada simplesmente no quintal atrás
da sua casa. Tinha sete metros de altura por sete de largura
e apresentava um tipo de calço formado por três
pedras pequenas.

Ramos pôde observar, então que 26 dias antes
do solstício de verão o sol nascia entre duas
pedras no alto do Morro da Barra. No dia 21 de dezembro, um
dia depois do fim da primavera, o sol nascia sobre um dólmen
(megálitos verticais, sobre-postos a outros horizontais)
à direita das duas pedras. Em 1999 descobriu outro
dólmen no caminho que liga a Fortaleza da Lagoa à
Praia da Galheta que serviria como observatório para
os equinócios a partir de outros megálitos.
Foi assim que o antropólogo começou a defender
a hipótese da existência de pedras com função
astronômica em Florianópolis. Constatou que os
primeiros povos a habitar a região litorânea
utilizavam grandes blocos de pedra, posicionados no topo de
morros à beira-mar, como um imenso calendário
astronômico a céu aberto.
Os índios e pré-índios usavam esse calendário
para uma série de atividades cotidianas como a pesca
e o plantio.
Com o tempo, utilizando um medidor geodésico, Ramos
pôde comprovar sua tese sobre as pedras orientadas:
os primeiros habitantes da Ilha de Santa Catarina possuíam
conhecimentos astronômicos e matemáticos, além
de disporem de tecnologia suficiente para construir
tais calendários de pedra.

Nossa redação procurou o senhor Adnir Antônio
Ramos, mais conhecido como Maninho, no dia 1º de dezembro
a fim de saber sobre as novidades da arqueoastronomia.
Redação: Maninho, é verdade que
será inaugurado um portal para a trilha da Fortaleza
da Barra?
Maninho: Sim, no dia 18 de dezembro, na entrada da
Fortaleza da Barra, inauguraremos um portal que servirá
de ponto de partida para uma trilha de visitação
a monumentos megalíticos.
R: Nos contaram que nesta inauguração
acontecerão duas campanhas simultâneas, é
verdade?
M: Sim, na inauguração faremos uma campanha
de arrecadação de alimentos para os índios
Guarani e Caigangues que atravessam uma situação
precária e outra campanha de retirada dos pinus elióticos
do morro da Galheta, pois estes pinus danificam a vegetação
nativa e escondem os monumentos megalíticos, colocando
em risco o capim gordura e o sapê, além de todo
o ecossistema da região.
R: Outras atividades estão sendo planejadas?
M: Sim, o arreda boi, o Valdir Agostinho, o coral dos
índios e muitos outros artistas serão convidados
para este dia.
Quando começou este levantamento, loteamento e identificação
dos monumentos megalíticos?
Eroconsult é uma empresa de levantamento aerofotogramétrico,
contratada pela prefeitura de Florianópolis a fim de
identificar os pontos de assoreamento da Lagoa da Conceição.
Na mesma ocasião, entramos com um projeto para aproveitar
o trabalho que estava sendo realizado na Lagoa para que também
fosse feito o levantamento dos monumentos megalíticos
do morro da Galheta até a Joaquina. Logo em seguida,
com GPS Geodélico, tiramos todas as coordenadas geográficas
e com a FONPAR (Fundação da Universidade do
Paraná) e o professor e astrônomo Germano, que
é uma autoridade no assunto, fizemos o loteamento destes
monumentos megalíticos e foram, neste momento, comprovados
os alinhamentos.
R: Quando tudo isso aconteceu?
M: Por volta de 1996, quando queriam implantar na ilha
o turismo rupestre, momento este que intervimos negativamente,
já que entendíamos que naquela época
não havia condições mínimas para
abrirmos as trilhas, pois isto exige um planejamento minucioso,
com infra-estrutura, monitores e vigilantes para que não
haja uma depredação.
R: Como anda o panorama geral da arqueologia em Santa
Catarina?
M: O panorama geral está lastimável,
no Costão do Santinho, por exemplo, muitas peças
retiradas já não são mais localizadas.
Pude acompanhar a destruição de dois megálitos
em Laguna. Nós acompanhamos recentemente a retirada
de aterro do sambaqui da Palhoça para a venda de adubo.
O IFAM tem três ou quatro arqueólogos para cuidar
de toda Santa Catarina. Em outubro, quando fui dar uma palestra
em Laguna, encontrei no Sambaqui quatro machadas (artefatos
indígenas) na beira da água, pois as pessoas
tiravam o aterro, faziam as suas casas e o restante jogavam
para dentro da água. Conforme a maré vai lavando
o aterro, as peças vão reaparecendo, desmascarando
o crime arqueológico que é feito em Santa Catarina.
R: Como você se sente diante deste quadro?
M: Sinto-me impotente, pois o meu papel é de
pesquisador e a fiscalização, que é obrigação
do governo, está impotente e inoperante. Para aliviar
a consciência, dedico-me a projetos como este que será
inaugurado no próximo dia 18 de dezembro na Fortaleza
da Barra.
Nossa redação vem observando há muito
tempo, vandalismo e depredação deste patrimônio
da humanidade. Com a proximidade da temporada, muitos turistas
que não fazem idéia da riqueza destas escrituras
e pedras, riscam, picham nomes e palavras, numa ação
muitas vezes inocente, devido à falta de avisos, fiscalização
e proteção por parte de nossas autoridades,
que ainda não se conscientizaram de que estas inscrições
e pedras podem ser a porta de entrada do turismo internacional
de qualidade, além de muitas descobertas sobre nosso
passado que ainda não foram levantadas.
É isso que o turista de qualidade procura, basta organizarmos
a visitação através de iniciativas públicas
e privadas.
É por isso que fizemos esta matéria, buscando
esclarecer um pouco sobre essa riqueza, a fim de diminuir
a destruição deste patrimônio.
Fica aqui o nosso compromisso de voltar a este assunto em
breve, até que algo relevante por parte do governo
seja feito para nortear o futuro da nossa arqueologia. Assim
como o belo exemplo que o governo dá, incentivando
a arqueologia sub aquática na praia dos Ingleses no
norte da ilha.
FIM
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