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A democracia
relativa
por Olsen
Jr
Nunca me furtei aos chamados deveres cívicos.
Quan- do era garoto, em época de eleição,
fui mesário. Isto durou até me filiar ao bom
e velho MDB de guerra. Depois, nunca mais me convidaram. Agora,
hoje, na última convocação popular, com
alianças estranhas, mas reais, fui chamado
para ser fiscal de urna (PMDB). Topei. Camisa amarela (significa
ambição) deixando claro o apoio e o candidato
que iria escolher.
Pró-forma como se diz. Povo civilizado, aparentemente.
Nenhum transtorno. Lá pelas tantas encontrei, ou fui
encontrado, por uma amiga ligada ao cinema, integrante da
nossa intelligentzia, que me perguntou: o
quê? Você vota neste cara?...Tô fora...
e gritei para ela ouvir, supondo que você estivesse
dentro, o que é que muda? Ela fez de conta
que não me ouviu e se afastou.
Fiquei ponderando. Estava certo para ela que ela pudesse
escolher o candidato dela, mas não estava certo que
eu pudesse fazer a minha escolha no candidato que me aprouvesse.
Interessante. Algumas pessoas enxergam somente o que querem
ver.
Apreciamos quando os outros nos ouvem, escutam o que temos
para dizer. Neste aspecto, os outros nos justificam
como indivíduos, já que nos ouvem, e portanto
existimos. Não passa pela cabeça de um leigo,
não politizado (ou sem vínculo partidário)
que a nossa escolha, por exemplo integra costuras
ideológicas (ou não), interesses e ambições
(pessoais ou não) dos candidatos que estão no
páreo, na disputa e de outros que fazem parte do poder,
ou do grupo que decide pela agremiação (sigla),
ou que uma pessoa filiada deva obedecer a uma ética,
a um estatuto, a um código que tem premissas e objetivos.
Se alguém é incapaz disso, que não se
filie, mas também não há respaldo filosófico
para o franco-atirador ou mercenário,
que se vale da crítica pura e simples para chamar a
atenção sobre si e não para o problema
que deveria preocupá-lo, no primeiro caso; ou então,
que põe um talento que julga possuir e os préstimos
a serviço de causas não bem explicadas
ou interesse pessoal, no segundo caso.
A única excrescência em nossa democracia (duramente
conquistada) é a obrigatoriedade do voto, mas não
a divergência de opinião, que a fundamenta e
consolida. Se é obrigatório não
pode ser democrático, há uma contradição
em termos, mas é um bom começo. O voto esclarecido,
desobrigado, espontâneo, nos livraria da corrupção,
do assédio, da barganha, do político calhorda
e do eleitor venal, enfim, o sujeito só existe como
cidadão quando vota. Não entender isso é
não merecer o direito de escolher. Exigir que todos
pensem igual num comportamento mimético
é subestimar a nossa condição
de seres pensantes, o que duvido muito a julgar por certos
questionamento como este, que a tal amiga me fez. Afinal,
lembrei do Paulo Francis, passamos a vida tomando decisões
e arcando com as conseqüências, ainda que coexistam
com outras possibilidades. É preciso escolher. É
nisto em que acredito, é sartriano, acrescento!
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