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[Crônica] NOV.04

A democracia relativa
por Olsen Jr

Nunca me furtei aos chamados “deveres cívicos”. Quan- do era garoto, em época de eleição, fui mesário. Isto durou até me filiar ao bom e velho MDB de guerra. Depois, nunca mais me convidaram. Agora, hoje, na última convocação popular, com alianças “estranhas”, mas reais, fui chamado para ser fiscal de urna (PMDB). Topei. Camisa amarela (significa ambição) deixando claro o apoio e o candidato que iria escolher.

Pró-forma como se diz. Povo civilizado, aparentemente. Nenhum transtorno. Lá pelas tantas encontrei, ou fui encontrado, por uma amiga ligada ao cinema, integrante da “nossa intelligentzia”, que me perguntou: “o quê? Você vota neste cara?...Tô fora”... e gritei para ela ouvir, supondo que você estivesse “dentro”, o que é que muda? Ela fez de conta que não me ouviu e se afastou.

Fiquei ponderando. Estava certo para ela que ela pudesse escolher o candidato dela, mas não estava certo que eu pudesse fazer a minha escolha no candidato que me aprouvesse. Interessante. Algumas pessoas enxergam somente o que querem ver.

Apreciamos quando os outros nos ouvem, escutam o que temos para dizer. Neste aspecto, “os outros” nos justificam como indivíduos, já que nos ouvem, e portanto existimos. Não passa pela cabeça de um leigo, não politizado (ou sem vínculo partidário) que a “nossa” escolha, por exemplo integra costuras ideológicas (ou não), interesses e ambições (pessoais ou não) dos candidatos que estão no páreo, na disputa e de outros que fazem parte do poder, ou do grupo que decide pela agremiação (sigla), ou que uma pessoa filiada deva obedecer a uma ética, a um estatuto, a um código que tem premissas e objetivos. Se alguém é incapaz disso, que não se filie, mas também não há respaldo filosófico para o “franco-atirador” ou “mercenário”, que se vale da crítica pura e simples para chamar a atenção sobre si e não para o problema que deveria preocupá-lo, no primeiro caso; ou então, que põe um talento que julga possuir e os préstimos a serviço de “causas” não bem explicadas ou interesse pessoal, no segundo caso.

A única excrescência em nossa democracia (duramente conquistada) é a obrigatoriedade do voto, mas não a divergência de opinião, que a fundamenta e consolida. Se é “obrigatório” não pode ser democrático, há uma contradição em termos, mas é um bom começo. O voto esclarecido, desobrigado, espontâneo, nos livraria da corrupção, do assédio, da barganha, do político calhorda e do eleitor venal, enfim, o sujeito só existe como cidadão quando vota. Não entender isso é não merecer o direito de escolher. Exigir que todos “pensem” igual num comportamento mimético é subestimar a “nossa” condição de seres pensantes, o que duvido muito a julgar por certos questionamento como este, que a tal amiga me fez. Afinal, lembrei do Paulo Francis, passamos a vida tomando decisões e arcando com as conseqüências, ainda que coexistam com outras possibilidades. É preciso escolher. É nisto em que acredito, é sartriano, acrescento!

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