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[Música] OUT.04

“RANCHO DA MARCHA RANCHO”

Neco e a Cidade
Orlando Mello, músico e compositor, nasceu na cidade de São Leopoldo - RS há 47 anos e chegou com sua família em Florianópolis em 9 de fevereiro de 1970, véspera de carnaval, para se transformar num dos “manezinhos” mais representativos e apaixonados dessa cidade. Em seu 1º passeio pela cidade, o menino Neco – como ficou conhecido - deparou-se com um grupo de crianças brincando e cantando na rua, todos mascarados, o que o deixou curioso e maravilhado. As crianças brincavam de “Papanduva” e anunciavam a chegada do carnaval.

Com os pais, o Sr. Airton Mello e Dona Janice e seus 7 irmãos, estabeleceu-se no bairro de Coqueiros onde passou sua infância e juventude e onde também teve seu contato mais caloroso com a música.

O menino Neco, aos 12 anos, já participava das rodas de boemia como gente grande, com seu violão sempre à postos. Lembra Neco, da época em que extraía das pedras das praias de Coqueiros as ostras que degustava na hora, puras e fresquinhas - e foi nesta mesma praia que poucos anos mais tarde assustou-se ao se deparar com uma placa anunciando: “Praia Imprópria para Banho”. Mas seu susto não melindrou sua paixão, e Neco partia com sua mochila nas costas, percorrendo praia a praia, canto a canto, sua Ilha, de norte a sul. Pronto! Agora podia dizer: “Conheço essa ilha como a palma da minha mão!” E talvez a não conhecesse a palma de sua mão tão bem quanto a Ilha...

A Barra da Lagoa, musa inspiradora e menina dos olhos de Neco, conheceu num passeio de Kombi com o amigo e colega Marcelo Muniz – um dos fundadores do Grupo Engenho - e família. E em 1980, teve sua obra mais importante gravada e consagrada pelo Engenho:
 
“Hoje to triste, pescador ..........................Hoje não tem, cantoria
Perdi meu amigo Chicão ...........................Nem vai ter boi-de-mamão
Morreu de cansaço dos barcos................... Renda em dobro pra Maria
Lá na Barra da Lagoa .............................Que é rendeira da Lagoa
Lagoa da Conceição!.............................. Lagoa da Conceição!
Lagoa da Conceição!.............................. Lagoa da Conceição!”

 Neco e a Música
 Sempre atento nos movimentos musicais e influenciado pela musicalidade rica e sofisticada dos nossos manezinhos, compôs sua primeira canção aos 13 anos e a batizou de “Pescador”, a partir daí não parou mais. De 1979 a 1984, Neco passou a viver, respirar, beber e comer música, literalmente! Trabalhava com música para garantir seu pão e alimentar sua alma. Claro que a alma sempre muito mais alimentada que o bolso, o que resultou em um lucro incalculável para a cultura catarinense. Das mais de 50 músicas compostas e - oficialmente registradas – a mais conhecida é a “Lagoa da Conceição”. Onde tiver uma roda de violão, ouve-se “...Hoje tô triste, pescador / Perdi meu amigo Chicão / Morreu de cansaço dos barcos / Lá na Barra da Lagoa / Lagoa da Conceição, Lagoa da Conceição...” - praticamente um “mantra-mané”! Em 1975 ganhou seu 1º cachê, apresentando-se no Holliday Center, onde também tocavam músicos como Samuka, Rui Neves, Fernando Bastos e Detto.

Em suas andanças pelas noites de Florianópolis, Neco gostava de freqüentar a extinta boate Samburá, embaixo do Praia Clube, em Coqueiros, para assistir o fino da música catarinense com a bossa de Luiz Henrique Rosa, o samba de Detto e Tuca, o piano de Aldo Gonzaga e as composições maravilhosas de Zininho. No Restaurante Tubulão, Neco viu pela primeira vez, absolutamente encantado, um negro lindo e muito elegante dentro do seu terno, tocando um trombone tão suave que aproximava seu instrumento dos ouvidos das pessoas. Tratava-se de Mazinho – o grande Mazinho do Trombone. Algumas noites a boemia rolava na famosa boate do Clube Penhasco e, com o avançar das horas, Neco voltava para casa à pé, percorrendo toda a Prainha, atravessando a Ponte Hercílio Luz até chegar em Coqueiros. Depois de passar por um terreno abarrotado de cajueiros, chegava, enfim, em sua casa. Em seu caminho, inebriado com o perfume que exalava dos cajueiros, Neco compôs outro grande sucesso, conhecido dentro e fora do Estado: “Que Gostoso é o Caju!”, uma canção doce e de alma pura, como é o próprio compositor.

Presença constante em todos os Festivais Universitários da época, seu primeiro grupo musical chamava-se “V – 0” (lê-se VÊ ZERO) e era formado por ele, Álisson Motta e Frazer, todos estudantes de Engenharia da UFSC. Seus parceiros Álisson e Frazer vieram a formar, mais tarde, o famoso Grupo Engenho – antes chamado “Misantropia” – com Marcelo Muniz, Luiz Moukazel e Chico Thives. Neco seguiu compondo, cantando e fazendo parcerias. Gravou um disco compacto duplo com a participação de músicos de renome nacional como Lethieres Leite – atualmente músico e arranjador de Ivete Sangalo, Alegre Corrêa, Márcio Corrêa, Gringo Saggioratto, Luiz Meira, Isaak e Laurinho Bandeira – hoje trabalhando na Áustria.
 
“RANCHO DA MARCHA RANCHO”
 Profissionalmente, afastou-se da música e foi trabalhar longe dos palcos assim que se casou com Liliam, em 1984, e com ela teve seus três filhos: Maurício (20), Eduardo (19) e Roberto (10). Mas como quem nasce com a música nas veias não permanece em silêncio, Neco jamais deixou de carregar seus instrumentos de percussão, onde quer que ele fosse. Aliás, assim o faz até hoje. É ouvir um violãozinho que já puxa seu batuque e arrasa!

Com a nobre intenção de reunir os velhos e atrair os novos amigos e de resgatar a nossa música e reunir grandes músicos e amantes da música, Neco mantém um rancho onde cria ostras na Ponta de Sambaqui, e abre as portas todo 1º domingo do mês para uma “Jam Session”, ou seja, os músicos comparecem com seus instrumentos, músicas e inspirações e o “Rancho da Marcha Rancho” – uma homenagem ao gênero musical perdido no tempo – oferece uma refeição à base de frutos do mar e servida em pratos de barro com a indispensável cervejinha, ou a deliciosa caipirinha de cachaça, dependendo do gosto do freguês. Já no 2º domingo do mês, Neco abre as portas de seu Rancho para o ensaio de seu bloco de carnaval, o “Marcha Rancho”, que pretende resgatar o verdadeiro carnaval de rua de Florianópolis. No último carnaval, o bloco fez sucesso total por onde passou com o samba “Tristeza Zero”. Para o próximo carnaval, Neco estima que aumente consideravelmente o número de foliões, e avisa que “quem tiver interesse em participar do bloco, é só procurá-lo “lá no Rancho, na Ponta de Sambaqui, não tem?” e reservar sua camiseta para garantir a alegria do próximo carnaval.

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