ANO III-nº31 - outubro de 2004 - Florianópolis - 10.000 exemplares em papel - pega o teu, ô: Distribuição Gratuita


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[Crônica] OUT.04

por Olsen Jr

E PORQUE NÃO, EU ?

assei a vida toda abrindo mão da “minha vez”, sempre acreditando que “havia alguém melhor do que eu”. Hoje, decorridos quase 50 anos, pergunto “onde estão aqueles que julgava melhores do que eu?”. Não é difícil responder, a maioria cedeu a uma espécie de comodismo afeito ao “quero acertar a minha vida”, e de fato acertaram ou então, quando a farsa é revelada, quer dizer, o interesse individual se sobrepondo às necessidades coletivas daquilo que se esperava que fizessem, perdem a credibilidade e disfarçam com um aparente enfado, um déjà vu piedoso, uma certa descrença nos homens que lhes repetem os passos, naquilo que já vivenciaram e chegaram onde chegaram, ficando, no entanto, sempre a amarga consciência de que tudo se repete na natureza humana, e quando atingem esta constatação é, invariavelmente, tarde para (re)começar de outra maneira, vivenciam então, o círculo vicioso do avô repetindo sempre as mesmas histórias para os “seus” netos. Todas as vezes que um homem decente se omite, um canalha assume.

Isto tudo me vem à lembrança agora que me candidatei à cadeira nº 05 da Academia Catarinense de Letras, vaga com a morte do amigo, escritor Theobaldo Costa Jamundá (de quem já falei neste espaço, edição do dia 11/06) e cujo patrono foi o jornalista Crispim Mira. Um acadêmico teve a desfaçatez de pedir para que desistisse da candidatura com o argumento solerte de que “não era a minha vez”...ri, disse ao “emissário” que não contava com o voto dele, mas lembrei-lhe que a “minha geração” foi a que fez a hora, que não esperou acontecer, que eu (como lembrou Kennedy) perdôo tudo só não esqueço os nomes. Não suporto a covardia e nem a subserviência. Então, ele deu a estocada que acreditava mortal: “o teu principal concorrente nasceu na rua Crispim Mira e escreveu um livro sobre ele”. E daí? Questiono, o que o Sr. está me propondo seria o mesmo que eu afirmar, meu pai nasceu em Blumenau (é fato), morei minha vida toda lá, fui amigo do Emil Fischer no bairro da Velha, também da sua filha, conhecida nacionalmente como Vera Fischer, e então, vamos mobilizar a classe dos jornalistas para pô-la em meus braços, uma vez que sou absolutamente apaixonado por ela, como qualquer um pode constatar. Tenha dó. Mais que tergiversar sobre sonhos, é vivê-los, digo para o atônito interlocutor, Crispim Mira é uma alma gêmea de qualquer idealista, obcecado por uma causa coletiva, de pessoas que se sacrificam e também são sacrificadas, que precisam morrer para que a sociedade saiba que um dia existiram, no meu caso, temos muitas coisas em comum, somos escritores, ambos formados em Direito, e também jornalistas que nunca fizeram concessões. Crispim Mira morreu assassinado por razões políticas: acredito que não tenha o mesmo fim, mas se o tiver, provavelmente, citando Nelson Rodrigues, serei assassinado por imbecis de ambos os sexos, sem razão nenhuma. Depois disso, o cara saiu desconcertado mas consciente de que a direita acreditava que eu não tinha mais jeito, já a esquerda, tinha certeza!

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