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UM MERGULHO
NA HISTÓRIA DE Sta. CATARINA Parte
1

Florianópolis deixa de cha mar a atenção
apenas pe las suas belezas naturais para atrair grandes pesquisadores
do mundo inteiro. A metodologia aplicada nos estudos sobre
um naufrágio localizado na praia dos Ingleses agora
desponta como uma das melhores do mundo e constitui um marco
na história da Arqueologia Subaquática.
Os objetos encontrados, a forma das pesquisas e a equipe
multidisciplinar justificam tanto reconhecimento. As descobertas
são fascinantes, remetendo a um imaginário recheado
de grandes histórias: exploradores, navios, naufrágios,
cotidiano no mar e a cultura de uma época ainda não
descrita de forma completa.
Tudo começou em 1989, quando Alexandre Vianna, que
mergulha no canto sul da praia dos Ingleses desde os 11 anos
de idade, encontrou por acaso a primeira jarra cerâmica
ou botija peruleira utensílio de cerâmica
antigamente usado para transportar azeite, vinho, vinagre,
grãos, óleo para lamparinas, projéteis
de chumbo ou bebidas (considerado o saco plástico da
antiguidade). O mergulhador de 32 anos conta: Era um
lugar que muita gente mergulhava, mas ninguém nunca
reparou em nada. Talvez pela minha curiosidade, dei atenção
àqueles fragmentos de barro.
Vianna viu o fundo de uma botija semi-enterrado na areia
do mar e entendeu que havia mais delas na região. Naquele
momento vi que havia um naufrágio ali, mas não
sabia que seria tão importante historicamente,
conta.
Como na época a Marinha não previa nenhum retorno
à pessoa que localizasse um naufrágio, Vianna
guardou as peças. A lei vigente era a número
7.542, chamada Lei Sarney ou Lei dos Naufrágios. De
acordo com ela, tudo que se encontrava no fundo do mar seria
da União - uma imitação da lei terrestre,
segundo o Arqueólogo da Marinha, Luiz Octávio
Cunha. Ela incentivava o saque, porque se um mergulhador
descobrisse algo no mar, até ouro, teria que avisar
a Marinha para que o órgão fosse até
lá retirar as peças, analisa.
Mas nem sempre foi assim. No início da década
de 80, existiam muitas empresas de salvatagem, que exploravam
navios naufragados. Era um negócio lucrativo, porque
80% de tudo que fosse encontrado ficava com as empresas, e
apenas 20% com a Marinha, com direito de escolha para o órgão
do governo. Mas a Marinha só se interessava pelo
material náutico, como âncoras, canhões
e algumas peças pequenas. A maioria das peças
de valor, como jóias, brincos, anéis e moedas
ficavam com as empresas. Por exemplo, de cada 10 moedas de
ouro, oito pertenciam à quem localizou o navio. A marinha
se interessava pelo valor histórico e não financeiro,
não queria aquelas peças para vender.
Essa realidade continuou até 1987, quando o órgão
concedeu a última permissão de exploração
para o galeão português São Paulo, em
Pernambuco. Assim que as autorizações para explorações
foram suspensas, o saque aumentou consideravelmente.
Em dezembro de 2000, foi assinada pelo Presidente Fernando
Henrique Cardoso a alteração de lei nº
10.166, que regulamenta as pesquisas de naufrágios
brasileiros e prevê retornos a quem investe na exploração
das embarcações. Hoje as pessoas podem
investir tempo e dinheiro com a possibilidade de algum retorno.
Existe vantagem em informar os tesouros submersos encontrados,
prevê Luiz Octávio.
Com a alteração da lei, os estudos passaram
a ser viabilizados. Foi um incentivo para que Vianna se unisse
aos amigos Marcelo Lebarbenchon Moura e Narbal de Souza para
juntos iniciarem estudos a cerca da possibilidade e maneiras
de explorar o sítio arqueológico, 11 anos após
a descoberta.
Em 2002, o projeto de pesquisa consagrou-se como o primeiro
do país a receber total autorização da
Marinha do Brasil, e é o único até hoje.
Para Vianna e todos envolvidos no projeto, a verdadeira riqueza
está relacionada à arqueologia, como solas de
sapato, ossos e outros objetos que fazem parte da História.
O trâmite burocrático para que os estudos fossem
viabilizados demorou dois anos, já que o processo é
dividido em duas etapas: pesquisa e exploração.
Em 2001 os pesquisadores tiveram a autorização
de pesquisa, que confirmava a existência e localização
do naufrágio. Em janeiro de 2004 a exploração
foi autorizada pela Marinha. Para administrar e desenvolver
os estudos, foi fundada a ONG PAS (Projeto de Arqueologia
Subaquática), que conta com a colaboração
de 40 pessoas, entre pesquisadores brasileiros e internacionais,
cinegrafistas, mergulhadores, fotógrafos e auxiliares.
Por enquanto, o Projeto de Arqueologia Subaquática
da Praia dos Ingleses é financiado pelo governo estadual.
Novas iniciativas devem auxiliar o projeto a conquistar mais
recursos, como a criação de um clube de sócios.
Outra alternativa, segundo Narbal de Souza, é uma campanha
que incentive as pessoas a participar da Lei de Incentivo
à Cultura, que permite a doação de 4%
do imposto de renda de empresas e 6% de pessoa física
a algum órgão cultural. Estudos antropológicos
encaixam-se nessa categoria. Além disso, o PAS vem
buscando parce rias, para o engajamento de um universo maior
de interessados e empresas.
Mais : [2] [3]
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