ANO III-nº31 - outubro de 2004- Florianópolis 10.000 exemplares em papel pega o teu, ô: Distribuição Gratuita


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[Capa/Livro Aberto] OUT.04

UM MERGULHO
NA HISTÓRIA DE Sta. CATARINA Parte 1


Florianópolis deixa de cha mar a atenção apenas pe las suas belezas naturais para atrair grandes pesquisadores do mundo inteiro. A metodologia aplicada nos estudos sobre um naufrágio localizado na praia dos Ingleses agora desponta como uma das melhores do mundo e constitui um marco na história da Arqueologia Subaquática.

Os objetos encontrados, a forma das pesquisas e a equipe multidisciplinar justificam tanto reconhecimento. As descobertas são fascinantes, remetendo a um imaginário recheado de grandes histórias: exploradores, navios, naufrágios, cotidiano no mar e a cultura de uma época ainda não descrita de forma completa.

Tudo começou em 1989, quando Alexandre Vianna, que mergulha no canto sul da praia dos Ingleses desde os 11 anos de idade, encontrou por acaso a primeira jarra cerâmica ou botija peruleira – utensílio de cerâmica antigamente usado para transportar azeite, vinho, vinagre, grãos, óleo para lamparinas, projéteis de chumbo ou bebidas (considerado o saco plástico da antiguidade). O mergulhador de 32 anos conta: “Era um lugar que muita gente mergulhava, mas ninguém nunca reparou em nada. Talvez pela minha curiosidade, dei atenção àqueles fragmentos de barro”.

Vianna viu o fundo de uma botija semi-enterrado na areia do mar e entendeu que havia mais delas na região. “Naquele momento vi que havia um naufrágio ali, mas não sabia que seria tão importante historicamente”, conta.
Como na época a Marinha não previa nenhum retorno à pessoa que localizasse um naufrágio, Vianna guardou as peças. A lei vigente era a número 7.542, chamada Lei Sarney ou Lei dos Naufrágios. De acordo com ela, tudo que se encontrava no fundo do mar seria da União - uma imitação da lei terrestre, segundo o Arqueólogo da Marinha, Luiz Octávio Cunha. “Ela incentivava o saque, porque se um mergulhador descobrisse algo no mar, até ouro, teria que avisar a Marinha para que o órgão fosse até lá retirar as peças”, analisa.

Mas nem sempre foi assim. No início da década de 80, existiam muitas empresas de salvatagem, que exploravam navios naufragados. Era um negócio lucrativo, porque 80% de tudo que fosse encontrado ficava com as empresas, e apenas 20% com a Marinha, com direito de escolha para o órgão do governo. “Mas a Marinha só se interessava pelo material náutico, como âncoras, canhões e algumas peças pequenas. A maioria das peças de valor, como jóias, brincos, anéis e moedas ficavam com as empresas. Por exemplo, de cada 10 moedas de ouro, oito pertenciam à quem localizou o navio. A marinha se interessava pelo valor histórico e não financeiro, não queria aquelas peças para vender”.

Essa realidade continuou até 1987, quando o órgão concedeu a última permissão de exploração para o galeão português São Paulo, em Pernambuco. Assim que as autorizações para explorações foram suspensas, o saque aumentou consideravelmente.

Em dezembro de 2000, foi assinada pelo Presidente Fernando Henrique Cardoso a alteração de lei nº 10.166, que regulamenta as pesquisas de naufrágios brasileiros e prevê retornos a quem investe na exploração das embarcações. “Hoje as pessoas podem investir tempo e dinheiro com a possibilidade de algum retorno. Existe vantagem em informar os tesouros submersos encontrados”, prevê Luiz Octávio.
Com a alteração da lei, os estudos passaram a ser viabilizados. Foi um incentivo para que Vianna se unisse aos amigos Marcelo Lebarbenchon Moura e Narbal de Souza para juntos iniciarem estudos a cerca da possibilidade e maneiras de explorar o sítio arqueológico, 11 anos após a descoberta.

Em 2002, o projeto de pesquisa consagrou-se como o primeiro do país a receber total autorização da Marinha do Brasil, e é o único até hoje. Para Vianna e todos envolvidos no projeto, a verdadeira riqueza está relacionada à arqueologia, como solas de sapato, ossos e outros objetos que fazem parte da História.
O trâmite burocrático para que os estudos fossem viabilizados demorou dois anos, já que o processo é dividido em duas etapas: pesquisa e exploração. Em 2001 os pesquisadores tiveram a autorização de pesquisa, que confirmava a existência e localização do naufrágio. Em janeiro de 2004 a exploração foi autorizada pela Marinha. Para administrar e desenvolver os estudos, foi fundada a ONG PAS (Projeto de Arqueologia Subaquática), que conta com a colaboração de 40 pessoas, entre pesquisadores brasileiros e internacionais, cinegrafistas, mergulhadores, fotógrafos e auxiliares.

Por enquanto, o Projeto de Arqueologia Subaquática da Praia dos Ingleses é financiado pelo governo estadual. Novas iniciativas devem auxiliar o projeto a conquistar mais recursos, como a criação de um clube de sócios. Outra alternativa, segundo Narbal de Souza, é uma campanha que incentive as pessoas a participar da Lei de Incentivo à Cultura, que permite a doação de 4% do imposto de renda de empresas e 6% de pessoa física a algum órgão cultural. Estudos antropológicos encaixam-se nessa categoria. Além disso, o PAS vem buscando parce rias, para o engajamento de um universo maior de interessados e empresas.

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