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NÃO
ACEITO DEVOLUÇÕES
por Olsen
Jr
Certas situações se reproduzem no cotidiano
e você fica com a impressão de que aquilo só
poderia ter aconteci do no cinema. Dia destes fui visitar
uma tia (irmã de minha mãe) em Mafra (SC), norte
do Estado; ela estava fazendo 82 anos, e isto, pensei, não
é para qualquer um. Ainda bem que foi só um
dia, porque com tantas guloseimas elaboradas para
a ocasião, mais um pouco e teria que ser internado
num Spa. Na volta visitei um irmão em Rio
Negrinho (SC) e outro em São Bento do Sul (SC), sigo
a viagem para Florianópolis. Em Itapema paro no Café
Colonial ao lado do Flamingo, cujo ecônomo, Sr. Rudibert
(um alemão da guerra, queria o quê?) é
uma pessoa muito divertida, gosta muito de contar piadas
de alemão, e como afirmava o crítico americano
H.L.Mencken: Quando um homem ri de seus problemas, perde
um monte de amigos. Eles nunca o perdoam pela perda de suas
prerrogativas.
Inverno, anoitece cedo, uma fina garoa polvilha os vidros
das vitrines e o capô dos carros. Decido fazer uma ligação
no telefone público em frente, antes de entrar no Café,
desço do Hägar (um poderoso Gol-Mil
de cor preta) e me dirijo até a cabine. Tento três
vezes uma ligação para a Musa. Em
todas as tentativas, a mesma voz na secretária eletrônica,
não foi possível fazer sua ligação,
favor consultar a lista telefônica, ora, pensei,
então não vou saber o telefone da Musa, era
só o que me faltava. Decido voltar até o Hägar
e consultar a agenda. Chego no estacionamento, abro a porta
do carro e vejo aquela bagunça, revistas para todos
os lados, jornais, bolachas... olho em torno e me surpreendo
dizendo este carro não é meu. Saio
apressado, fecho a porta e me dirijo para outro veículo
ao lado onde reconheço o velho Hägar
de guerra.
Levo um susto. Fico imaginando se o carro onde entrei fosse
de um policial, e vendo alguém dentro, poderia concluir
que estivesse sendo furtado, e naturalmente, teria o direito
de salvar o seu patrimônio. Observo os dois
automóveis, da mesma cor, do mesmo modelo e da mesma
marca. Estranho que minha chave funcionava em ambos. Comecei
a rir sozinho enquanto me dirigia ao café, faria a
ligação lá de dentro, e fiquei pensando
se fosse mais distraído entrava no carro,
e partia. Chegando em casa perceberia que tinha uma companhia,
pergunto quem é? Ela diria credo, querido, não
reconhece a sua mulherzinha, rio e penso estar ficando
louco. Depois percebo que o veículo nem é o
meu e tampouco a mulher.
Tento desfazer o equívoco, ligo para o cara
e digo: desculpe fulano, mas peguei o teu carro no estacionamento
e a tua mulher veio junto, você ficou com o meu, precisamos
desfazer a troca. Ele dará uma sonora gargalhada e
dirá, problema seu, gostei do teu carro, embora
ele tenha estranhado a maneira espalhafatosa com que dirijo,
parece que me rejeita... e quanto a mulher? Insisto,
estás brincando, não aceito devolução,
troca é troca e bate o telefone na minha cara.
Contei para o Rudibert a história, mas ele pensa que
estou inventando.
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