|
A ALIMENTAÇÃO NUM MOSTEIRO ZEN

Resenha da conferência proferida pelo Mestre Zen Ryotan
Tokuda, San Marcos de la Sierra, Argentina, 8 de novembro
de 1983.
Dentro de um Mosteiro Zen, o cargo de chefe de cozinha é
muito importante e sempre foi ocupado por grandes mestres.
Num mosteiro grande existem 80 tipos de cargos diferentes.
Entre eles, o chefe de cozinha é um dos 6 diretores,
talvez o mais importante de todos. Por que ? Porque a alimentação
é muito importante para a nossa vida. Quando chega
um novato, ele não ocupa cargo algum. Os novatos ficam
na sala de meditação e meditam dia e noite.
Os cozinheiros são monges veteranos, com mais de 3
ou 5 anos. São essas pessoas que preparam a comida
para os novos Budas.
Os novos Budas são aqueles monges novatos que estão
meditando na sala de meditação, com dores no
joelho. A sala de meditação é conhecida
como o lugar onde se escolhem Budas. Os cozinheiros preparam
a comida de acordo com as tradições, com muito
carinho e, antes de mandá-la para os monges, oferecem-na
ao Deus da cozinha e fazem nove reverências antes de
enviá-las para estes novos Budas. Para receber este
tipo de comida, os novatos precisam realmente se concentrar
em como poder receber este alimento. Antes de comer, recita-se
uma pequena oração. Em primeiro lugar lembra-se:
que para que este alimento tenha chegado até
nós, quantas pessoas trabalharam, plantaram, secaram
e colheram o arroz, bateram para tirar a palha. Isso
não só com o arroz, mas também com os
outros alimentos como os legumes. Em segundo lugar, pensando
bem, será que eu, novato, tenho o direito de
receber, ou mérito para tal ?. Senão,
estaremos comendo com o nosso desejo, criando karma. Em terceiro
lugar, para receber a refeição, devemos evitar
apegos.
Todas as brigas e as guerras surgem por causa da fome. Em
quarto lugar, recebe-se esta comida para não satisfazer
o estômago, mas como um bom remédio. Esta é
uma filosofia de medicina budista ou de medicina oriental.
Podemos encontrar os melhores tipos de remédios dentro
da cozinha, nas refeições. Podemos realizar
este caminho e isso não é satisfazer o estômago.
Os monges Zen dizem que este tipo de pessoas, que vivem somente
para comer, são como fábricas de cocô,
nada fazem senão isto.

Quando inicia-se uma refeição, a primeira porção
de comida é para se fazer todas as coisas boas. A segunda,
para cortar fora todas as coisas negativas e, a terceira,
para ajudar todos os seres. E comemos tudo para podermos com
isto realizar o Caminho. Antes de comer, pegamos 7 grãos
de arroz, que serão oferecidos, junto com a recitação
de mantras, aos demônios famintos, que com isso ficam
saciados. Dividindo antes de comer estes 7 grãos de
arroz, não estamos pensando somente em nós mesmos,
estamos também pensando nos outros.
Começamos a comer. A comida preparada com estes tipos
de cozinheiros tem muitas virtudes e méritos. Geralmente,
pela manhã, come-se somente papa de arroz, com gersal
e dois pedaços de picles de nabo, apenas isto, nada
mais. Dentro da prática Zen, um dia sem trabalho é
um dia sem comer.
Dentro da medicina oriental, yin e yang e 5 elementos. Cinco
sabores: salgado, amargo, doce, picante e azedo (vinagre).
Cinco cores: verde, vermelho, amarelo, branco e preto. Todos
têm ligação com os cinco órgãos,
yin e yang, ao todo são 10: fígado / vesícula
biliar, coração / intestino delgado, baço-pâncreas
/ estômago, pulmões / intestino grosso, rins
/ bexiga. Cada cor / sabor / sentimento está ligada(o)
com cada órgão. Por isso, o importante é
saber a comida correta, a quantidade e a hora em que é
servida. O melhor médico não cura a doença,
porque ele cura a pessoa antes que ela fique doente. O grande
médico não cura a pessoa, mas cura as razões
da vida errada que a pessoa está levando e que trouxeram
esta doença. A terceira categoria de médico,
mais inferior, trata a pessoa doente e a cura.
É dito que os monges, em geral, no mosteiro são
muito simples. Mas de certa forma, monges também comem
muito. Um leigo convidou alguns monges e disse para a esposa
: Prepare macarrão, porque monges gostam de macarrão,
prepare-lo para os monges que nos visitarão.
A dona da casa fez um montão de macarrão e ofereceu.
Eles comeram tudo. Aí o marido ficou muito triste dizendo
que havia faltado. Então reclamou para a sua senhora:
Eu te falei, faça muito macarrão para
os monges. Ela disse: Eu fiz muito, muito, para
cavalos até. Monges comem mais que cavalos. Dizem
que boca de monge é como boca de fogão. Existe
este ditado no Zen. Porque o fogão aceita tudo e não
há o que não queime. Mas, neste momento, o importante
é não fazer diferença entre as madeiras
de boa qualidade como o sândalo perfumado ou uma outra
árvore de segunda; quando entra na do fogão,
ele queima tudo e transforma em energia. Isso é filosofia.
Por certo não se trata apenas de alimentação.
Quando se encontram dificuldades, problemas, igualmente aceita
e, estas dificuldades ele as transforma em algo positivo.
Quanto mais ele encontra dificuldades, mais cresce. No mundo,
todos ficam reclamando, chorando, cheios de problemas. Estas
pessoas se comparam a um fogão cheio de lenha, mas
por onde não flui o ar. A fumaça entope e faz
toss, toss, toss. O fato é que isto acaba ocorrendo
porque eles não sabem queimar. Ficam reclamando, reclamando,
e estão cheios de problemas. Existe esta expressão:
A boca dos monges é como um fogão.
Porque qualquer coisa que venha, ela queima.
Mestre
Zen Ryotan Tokuda
|