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A ESTRADA REAL (1)

Na busca de ouro e diamantes surgiu um caminho entre as minas
e o mar, por onde trafegaram tropeiros, comercializaram escravos
e se esgotaram os veios e as jazidas, sempre na mira dos contrabandistas.
Duas trilhas marcaram a nossa história, uma delas termina
em Paraty, a outra na cidade do Rio de Janeiro. Ambas se apagariam
se não houvesse gente disposta a lutar além
da capacidade das minas que minguaram.
Em seguida o minério de ferro tornou-se o centro das
atenções comerciais e das trilhas fez-se a Estrada
Real. Mesmo não existindo registro de algum rei
ter passado pelo caminho a não ser um imperador, Dom
Pedro II, na curta história monárquica brasileira.
O caminho se apresenta repleto de monumentos, igrejas e vistas
dignas da realeza que justificam o nome, fazendo você
se sentir um rei.
Virando sinônimo de futuro para o turismo de Minas
Gerais, transpondo o ouro encerrado e os diamantes desaparecidos,
num registro histórico rico e farto.
O roteiro vai mais além do que um simples caminho.
Tem atrações e potencial, com as devidas proporções,
como o próprio caminho de Santiago de Compostela na
Europa.
Inclui 177 municípios dos quais 162 são em
Minas Gerais, passando em três estados por cerca de
1.400 quilômetros de extensão. Une o roteiro
dos queijos, dos inconfidentes, da cachaça, do turismo
religioso, das minas, do artista Aleijadinho e da história
do Brasil.
Podemos iniciar por Lagoa Dourada, capital mundial do Rocambole,
que fica na BR-383, entre Belo Horizonte e São João
Del Rey, onde cada pequeno estabelecimento disputa o status
de legítimo, verdadeiro, autêntico, numa briga
gastronômica que pode comprometer seriamente a sua dieta
no início do caminho.
Coincidindo com o roteiro Cidades Históricas,
você perceberá que a Estrada Real
inclui cidades esquecidas e desconhecidas pelos turistas menos
atentos. Podemos citar como exemplo a cidade Resende Costa,
que fica alguns quilômetros afastada da BR e apresenta
uma diversidade de artesanato como tear, panos de roca, colchas
e tapetes à venda em quase todas as portas.
A cidade de Coronel Chaves apresenta o Engenho Boa Vista,
propriedade da oitava geração de descendentes
familiares de Tiradentes, que, desde o século XVIII,
produz a cachaça mais antiga do Brasil.
Andando mais uns 20 quilômetros, fica a cidade histórica
de São João Del Rey, com sua aparência
típica das cidades da Beira, em Portugal. É
reduto dos Neves ali nasceram e estão enterrados
o presidente Tancredo Neves e sua esposa, Risoleta. Dali a
cidade espalha-se pelas margens do córrego do Lenheiro,
em logradouros antigos como o Largo do Rosário, a ponte
da Cadeia e a rua Santo Antônio, das fachadas inclinadas.
Podemos destacar a igreja de São Francisco de Assis,
cujo frontispício foi projetado por Aleijadinho e,
guardada no cemitério ao lado, os restos do referido
presidente que não chegou a tomar posse.
É indispensável a visita às igrejas
de Nossa Senhora do Carmo, do Rosário, das Mercês
e a catedral de Nossa Senhora do Pilar, bem como as lojas
de estanho onde a matéria prima é manufaturada
em várias fábricas.
Os 14 quilômetros que separam São João
Del Rey de Tiradentes são unidos por uma linda Maria-Fumaça.
Já na estação de desembarque, Tiradentes
demonstra sua beleza numa vila colonial bem cuidada, com hotéis
charmosos, ótimos restaurantes com pratos típicos
e lojas irresistíveis.
A redação procurou Vera Meyer, catarinense
radicada em Florianópolis, que realizou o percurso
da Estrada Real e nos deixou o seu relato pessoal. Recém
chegada do Caminho de Santiago de Compostela, Vera leu uma
reportagem sobre a Estrada Real e o lançamento de um
Guia para Caminhantes. O texto discorria sobre o primeiro
trecho, do Rio de Janeiro (RJ) até Juiz de Fora (MG),
num percurso de 175,5 km. Ele deixava claro que o Caminho
estava sendo reaberto, com trechos isolados, mas que já
contava com pontos definidos de pousada e paradas.
Vera: Fui pra lá e posso dizer que os moradores
ainda não estavam acostumados com o fluxo de Caminhantes,
ainda mais uma mulher sozinha. Hoje coloco que os cachorros
também não. Disseram-me que não deveria
ir só e que a estrutura não podia ser comparada
a do Caminho de Santiago....
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