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ASCENÇÃO E QUEDA
DE UM JOGADOR DE BISCA
por Olsen
Jr
Foi somente quando ouvi a expressão marca 96
pontos para o gostoso que comecei a prestar atenção
no jogo que acontecia na mesa próxima. A bisca se pratica
normalmente entre quatro pessoas, mas pode ser jogada em três
ou mesmo em duas. O baralho é espanhol e a cada rodada
se atinge um total de 120 pontos.
Naquele momento havia três pessoas disputando uma partida,
cada um por si, até mil. Daí, não era
difícil imaginar o contentamento do autor da expressão,
uma vez que deixara apenas 24 pontos para os dois adversários
dividirem. Logo depois ouço a mesma voz exclamar 84
pontos para o bonzão. Neste jogo, as rodadas
são rápidas e a contagem se faz de maneira idêntica.
Em seguida, percebo mais 71 para o cara.... Fiquei
observando a assistência que ria a cada intervenção
do sortudo jogador, e não havia como questionar aquele
escore dilatado que se abria a cada redistribuição
das cartas. Estou de olho no churrasco e o ouvido na mesa
de jogo. Escuto 60 redondos para o Degas.... Sabia
por experiência própria que não adiantaria
apressar aquele almoço porque ninguém arredaria
o pé daquela mesa enquanto um dos jogadores não
atingisse os tais mil pontos. Portanto, o melhor que tinha
para fazer era dar tempo ao tempo mesmo, no stress.
45 para o melhor. O segundo melhor,
corrige o outro que tinha feito três pontos a mais.
Todos riram, e percebi que a confiança do nosso homem
de sorte se ia alterando a cada contagem, desta vez um tanto
desconcertado. 30 ponto para o último grande
mestre. Percebo que ele já está trabalhando
mais as palavras e jogando menos. 21 sem dó nem
piedade para o lazarento aqui.
O jogo é algo interessante. Quando a sorte muda de
rumo, há que se manter a calma. Ou abandoná-lo,
o que seria mais sensato. Aliás, sensato é não
jogar, embora, no caso, nada estivesse valendo além
daquelas cervejas que todos bebiam.
17 para o babaca da comissão de frente.
Pelo menos ele conseguia fazer humor com o próprio
azar. Estão rindo, é? Nove para o cretino
da sobreloja, então, vociferou, tentando manter
ainda a dignidade do profissional que vê a sorte mudar
de lado sem entender exatamente o porquê, mas intuindo
que no jogo é assim mesmo.
Cinco pontos para o cachorrão que já
está morrendo de fome. Nem vem, contraria
alguém na mesa, concluindo: Vamos terminar isso
antes. Certo, como eu previa, existia uma ética
em tudo, até mesmo naquele jogo. Afastei-me um pouco
para dar uma espiada na carne e porque o aroma que saía
da churrasqueira era aliciante. Limitei-me em erguer um pouco
os espetos, mas mantendo o calor uniforme embaixo das peças
de carne, principalmente na paleta de ovelha, uma gordurinha
num dos cantos para insuflar o apetite e ver até onde
resistiriam (eu sabia que era até os desgraçados
mil pontos, mas não custava tentar).
Zero para o bundão dilapidador do tempo,
foi a última expressão que ouvi, antes de alguém
acrescentar: Deveria estar fazendo coisa melhor que
jogar baralho e meter o pau no governo. Claro, pensei,
enquanto cortava um naco de carne, deveria mesmo.
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