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O SONHO NÃO É CAUDILHO
NEM BUROCRATA
por Olsen Jr
Lá em casa não era bem visto. Aquele espectro
belicoso de alguém capaz de levar até às
últimas conseqüências a defesa de uma idéia
sugeria um sintoma de alguma anomalia não compatível
com pessoas que co-existem em sociedade. Ninguém insistia
na discussão até porque, no caso, ninguém
discutia. Lembro de uma grande entrevista no Coojornal,
periódico da resistência ao regime militar editado
por uma cooperativa de jornalistas em que se falava da história
dos vencidos e que, lá pelas tantas, afirmava-se
que bastaria um único caça sem disparar um único
tiro para por fim aquele embuste comandado atabalhoadamente
pelo general Olympio Mourão Filho, vindo de Minas Gerais.
Esperaram uma ordem que nunca chegou. Depois, aquela foto
na capa do livro, em Nova York, clássica, com Pedro
Simon, quando se preparava a Anistia. Em todas
as lembranças, a determinação de um homem,
obcecado por princípios, por ideais, pela ética,
pela coerência nunca associada a farsa e a canalha,
poderia não discernir entre o que ele próprio
queria, o que poderia ser feito, o que deveria ser feito,
ou o que era melhor para o País, mesmo do exílio
(brigou com o cunhado por causa disso), mas tinha consciência
de que o imobilismo era o último refúgio dos
covardes que esperam algum desfecho favorável para
poderem aderir ao mais forte, ao vencedor. Esteve no olho
do furacão das crises mais agudas de nossa política,
ou da ausência dela, até ser o alvo número
um da estratocracia que se aboletou no poder por 21 anos.
Era quem fazia o maior estardalhaço, o que semeava
o inconformismo com o arbítrio ao bel dispor. Deu no
que deu...quando tudo voltou à normalidade, os adesistas
de sempre tomaram os seus postos e permaneceu no ar a consciência
de que, independente da atuação deste
ou daquele, tudo acabaria onde acabou porque a
dita revolução havia cumprido o
seu papel.
Bem, existem algumas pessoas que cumprem um destino, o de
estar no lugar certo, na hora certa, e com espírito
abnegado, tornar as iniciativas certas...e depois, claro,
são esquecidas porque, afinal, todos estavam lá,
pegaram o mesmo barco e chegaram ao destino, também
porque ninguém se lembra mais dos timoneiros.
Sacanearam com o Luiz Carlos Prestes, com Ulysses Guimarães...e
com Leonel Brizola, todos com o mesmo sonho, o de ver um País,
o Brasil melhor, com menos injustiças sociais, com
menos desigualdades, mais fraterno, menos rancoroso, menos
ingratos com aqueles que são idealistas, artistas,
desapegados, como este que acaba de passar, Leonel Brizola,
como outro rio-grandense, Érico Veríssimo, em
Solo de Clarineta, a alguns homens cabe este destino,
o de ficar acendendo fósforos no meio da escuridão,
mesmo que sejam lampejos, aparentemente inúteis, mas
naquela pequena luz, há vida, e afinal, é com
esta que devemos contar. Morreu um grande brasileiro. Na crise
em que vivemos, de valores, ele teve a coragem de amar este
Brasil e de afirmá-lo publicamente.
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