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[Crônica] JUL.04

O SONHO NÃO É CAUDILHO
NEM BUROCRATA

por Olsen Jr

Lá em casa não era bem visto. Aquele espectro belicoso de alguém capaz de levar até às últimas conseqüências a defesa de uma idéia sugeria um sintoma de alguma anomalia não compatível com pessoas que co-existem em sociedade. Ninguém insistia na discussão até porque, no caso, ninguém discutia. Lembro de uma grande entrevista no “Coojornal”, periódico da resistência ao regime militar editado por uma cooperativa de jornalistas em que se falava da “história dos vencidos” e que, lá pelas tantas, afirmava-se que bastaria um único caça sem disparar um único tiro para por fim aquele embuste comandado atabalhoadamente pelo general Olympio Mourão Filho, vindo de Minas Gerais. Esperaram uma ordem que nunca chegou. Depois, aquela foto na capa do livro, em Nova York, clássica, com Pedro Simon, quando se preparava a “Anistia”. Em todas as lembranças, a determinação de um homem, obcecado por princípios, por ideais, pela ética, pela coerência nunca associada a farsa e a canalha, poderia não discernir entre o que ele próprio queria, o que poderia ser feito, o que deveria ser feito, ou o que era melhor para o País, mesmo do exílio (brigou com o cunhado por causa disso), mas tinha consciência de que o imobilismo era o último refúgio dos covardes que esperam algum desfecho favorável para poderem aderir ao mais forte, ao vencedor. Esteve no olho do furacão das crises mais agudas de nossa política, ou da ausência dela, até ser o alvo número um da estratocracia que se aboletou no poder por 21 anos. Era quem fazia o maior estardalhaço, o que semeava o inconformismo com o arbítrio ao bel dispor. Deu no que deu...quando tudo voltou à normalidade, os adesistas de sempre tomaram os seus postos e permaneceu no ar a “consciência” de que, independente da atuação “deste” ou “daquele”, tudo acabaria onde acabou porque a dita “revolução” havia cumprido o “seu” papel.

Bem, existem algumas pessoas que cumprem um destino, o de estar no lugar certo, na hora certa, e com espírito abnegado, tornar as iniciativas certas...e depois, claro, são esquecidas porque, afinal, todos estavam lá, pegaram o mesmo barco e chegaram ao destino, também porque ninguém se lembra mais dos timoneiros.

Sacanearam com o Luiz Carlos Prestes, com Ulysses Guimarães...e com Leonel Brizola, todos com o mesmo sonho, o de ver um País, o Brasil melhor, com menos injustiças sociais, com menos desigualdades, mais fraterno, menos rancoroso, menos ingratos com aqueles que são idealistas, artistas, desapegados, como este que acaba de passar, Leonel Brizola, como outro rio-grandense, Érico Veríssimo, em “Solo de Clarineta”, a alguns homens cabe este destino, o de ficar acendendo fósforos no meio da escuridão, mesmo que sejam lampejos, aparentemente inúteis, mas naquela pequena luz, há vida, e afinal, é com esta que devemos contar. Morreu um grande brasileiro. Na crise em que vivemos, de valores, ele teve a coragem de amar este Brasil e de afirmá-lo publicamente.

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